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Cientista cultivou vírus em laboratório e injetou-os em si mesma. E curou o próprio cancro

O tumor começou a encolher passados 11 dias e foi retirado cirurgicamente

A virologista Beata Halassy diz estar há 45 meses livre de cancro depois de ter sido cobaia da sua própria experiência científica. Conta a revista Nature que, em 2020, e depois de ter recebido um segundo diagnóstico de cancro da mama, já em estadio III, a investigadora da Universidade de Zagreb, na Croácia, autoadministrou um tratamento chamado viroterapia oncolítica, no qual injetou em si mesma os vírus que a própria cultivou em laboratório.

Halassy, de 50 anos, que já tinha tido cancro da mama em 2016, teve o aval dos seus médicos oncologistas, mas a ousadia da experiência - e o facto de a ter feita em si mesma - levantou várias questões éticas assim que a investigadora decidiu tornar pública a sua ação através de um artigo publicado na revista Vaccines e que conta com a colaboração de outros especialistas, que dizem que “a paciente concluiu a terapia adjuvante com trastuzumabe [um anticorpo monoclonal] durante um ano e continua bem e sem reincidência 45 meses após a cirurgia. Embora seja um caso isolado, encoraja a consideração da viroterapia oncolítica como uma modalidade de tratamento neoadjuvante”.

A terapia que Beata Halassy quis testar em si mesma não é nova, mas ainda não caiu nas graças da comunidade médica e científica para o tratamento oncológico, embora o seu propósito seja atacar as células cancerígenas, tornando o sistema imunitário capaz de as combater. No seu caso resultou, uma vez que os dois vírus usados - uma cepa de sarampo usada em vacinas e o vírus da estomatite vesicular, que afeta o gado - permitiram o tumor reduzir de tamanho para que fosse removido numa intervenção cirúrgica.

Segundo a Nature, a viroterapia oncolítica foi aprovada nos Estados Unidos em 2015 para tratar o melanoma metastático, mas ainda não há, no mundo, agentes de viroterapia oncolítica aprovados para tratar o cancro de mama, seja qual for o estágio em que se encontra. Há atualmente 115 ensaios clínicos em vigor para esta terapêutica.

Halassy injetou os dois vírus que cultivou em laboratório diretamente no tumor da mama - que surgiu junto à cicatriz da mastectomia que já tinha feito - em vários intervalos ao longo de seis semanas e foram apenas necessários 11 dias para que o tumor começasse a encolher, tendo a diminuição acontecido de forma gradual durante essas seis semanas. A investigadora garante não ter sofrido efeitos colaterais graves.

“A análise do tumor após a remoção mostrou que estava completamente infiltrado com células imunes chamadas linfócitos, sugerindo que a viroterapia oncolítica tinha funcionado como esperado e provocado o sistema imunitário de Halassy a atacar tanto os vírus quanto as células tumorais”, lê-se na Nature.

Mesmo tendo consciência que esta experiência apenas foi “viável devido à situação única em que a paciente também era uma virologista especialista”, os autores do estudo defendem que esta terapia vírica deve ser “aplicada em pacientes com estágios iniciais de cancro", uma vez que "pode efetivamente induzir imunidade antitumoral”.